Ela era simpática, honesta, sincera, inteligente, sonhadora, objectiva, calma, introvertida, bonita, baixa, branca, gorda. Já foi vítima de racismo e é vítima de bullying. Mas mesmo assim, ela é feliz.
Todos os dias, Constança, saía de casa às sete e meia da manhã, apanhava o autocarro que ficava na baixa da cidade, a vinte minutos a pé de sua casa, e ia para o trabalho. Apesar de ainda ter que apanhar o metro, o que roubava cerca de 15 minutos do seu tempo, o que lhe realmente a preocupava era o trajecto de sua casa à baixa.
Constança morava num bairro que, indo directamente ao assunto, era extremamente violento. Um bairro onde todas as paredes estavam sujas com desenhos, riscos, grafites, etc. Um bairro, onde não havia carros luxuosos que não fossem roubados. Um bairro, onde a maior parte das janelas estava partida. Um bairro, onde nada permanecia intacto durante muito tempo. Um bairro, só de pessoas de raça preta. Um bairro problemático, muito. Um bairro que era o inferno para ela, exclusivamente. Sim, ela tinha todo o privilégio do bairro, só para ela. Era a única branca do bairro, e isso era algo especial para os restantes moradores. Moradores, estes, que não deviam ser mais que cinquenta. Era um bairro muito pequeno, situado ao lado de uma estação de comboios antiga e abandonada e separada da baixa da cidade e das restantes populações. Não havia razão especial para tal facto, simplesmente assim o era.
Durante os últimos dois anos, Constança já tinha sido espancada cinco vezes, violada uma vez, tinha sido roubada mais de vinte vezes e teve a sua casa assaltada e um tanto destruída, duas vezes. Tinha uma vida muito agitada naquele bairro mas tinha decidido lá ficar. Não por ser masoquista, maluca, ou algo do género. Mas por acreditar que podia mudar a mente das pessoas que lhe fizeram tal mal. Por acreditar que era capaz de chamar as pessoas à razão. Por acreditar que aquelas pessoas são as que precisam de ajuda. Por acreditar ser a única pessoa que os poderia ajudar. E por essas razões todas, ela ficava no bairro que a maltratava.
(...)
- Olá branquinha. Há muito tempo que não te visitávamos, han? - disse o chefe de um grupo de delinquentes do bairro.
- Já tinha pensado exactamente no mesmo. - respondeu ironicamente Constança.
- E o que é que te vamos fazer hoje?
- Talvez nada? Deixarem-me ir para o trabalho? Ou até mesmo ouvirem o que tenho para vos dizer?
- Daqui não sais e nem te atrevas a começar a falar daquelas merdas todas como da outra vez! Corto-te a merda da garganta!
- Então corta, Nuno.
E ele cortou, sem hesitar. Era para isto que ele tinha sido criado, educado. Era para isto que ele saia todos os dias de casa com o seu gangue, sempre armado com facas e armas. Era para isto que ele tinha nascido.
Quando encontraram o corpo de Constança, ela estava morte. Deitada em cima de uma poça de sangue, com a garganta violentamente cortada, mas a sorrir.
A felicidade é algo que todos devemos alcançar. Seja um estado de mente, um estado físico ou até mesmo um sentimento. Seja como for, todos devemos ser felizes. E a felicidade pode ser encontrada em qualquer lugar, basta aceitarmos a nossa vida, tal como ela é. Os seus problemas, os seus obstáculos, as suas condicionantes, lutar pelos nossos sonhos e objectivos, etc. Era assim que Constança mantinha sempre um sorriso na cara. Ela era feliz e morreu feliz.
Ela era simpática, honesta, sincera, inteligente, sonhadora, objectiva, calma, introvertida, bonita, baixa, branca, gorda. Já foi vítima de racismo e é vítima de bullying. E mesmo assim, morreu feliz.