04/07/10

Não foi preciso grande trabalho, o nevoeiro tratou do resto.

Não havia ninguém naquele sitio, como sempre. Não estava nada fora do normal, como sempre. Ela sempre tinha sido assim. Mas naquelas noites, com aquela fumagem natural por cima dela, ela não era ela. E naquela noite, ela sabia que algo de estranho se passava. 

Enquanto ele caminhava cada vez mais para a escuridão, ela ia perdendo a vida. Cada passo accionado por ele, era menos uma batida no coração dela. E ele, consciente disso, acelerava o passo.
Ele não teve que fazer muito para acabar com o seu tormento, com aquela loucura de amor. Durante uns dias espiou'a, a sua namorada, futura noiva, até perceber o seu dia-a-dia. Sabia onde ela ia estar, a que horas, com quem, tudo. Só tinha que apanhar a altura certa. E assim foi, naquela noite as condições para o fim eram, como que perfeitas. Era uma noite cerrada e completa. Escura e sem lua, era despida. Um nevoeiro cobria tudo e escondia o resto, apagava tudo por onde passava, e comia o que sobrava. Ela tinha saído da reunião de emprego e dirigia'se para casa. Morava a dois quarteirões e não era a primeira vez que andava, à noite, a altas horas da noite, sozinha, naquelas ruas. E, sem medo, continuou o caminho para casa. A seguir à curva da loja de ferramentas, havia um pequeno parque. Ela atravessou'o, como sempre, virando à direita do chafariz. De um segundo para o outro, ela estava deitada no chão, degolada. Quem diria que atrás daquela árvore estava o meu anjo da morte ?
Pois bem, ele sabia que ela ia passar por ali.
Ele esperou até ouvir o reconhecível som dos saltos daqueles sapatinhos vermelhos. Sabia também que ela trazia vestido uma camisa rosa e uma saia preta. O cabelo estava atado com um gancho castanho, cor do seu cabelo, e a mala, pequena, era carregada debaixo do braço. Continuou atrás do carvalho do parque à espera que o aroma de pele, da sua noiva, lhe passasse pelas entranhas. Quando isso aconteceu, ela morreu. Foi simples, tão simples, que ele nem conseguiu admirar e desfrutar o momento como pensava fazer. Mal ela cruzou a árvore, ele deu um passo e colocou'se atrás dela. Levou a faca ao pescoço que tantas vezes beijara, e, num simples movimento, cortou aquela delicada pele. Enquanto isso, tapou'lhe a boca, com todo o cuidado, para não tratar mal os seus lábios preferidos. Concluído o movimento, deu um passo atrás e largou o corpo dela. Caiu no chão como um saco de batatas. Aquela cabeça morena embateu no chão, abrindo uma pequena fenda na testa. Ele virou'se, dirigiu'se ao chafariz, lavou as mãos, e seguiu caminho.
Enquanto se encaminhava para casa, ela ia morrendo, aos poucos e poucos, ali, sozinha e completamente acompanhada pelo nevoeiro. Este, cobria'a num manto espesso e húmido. Era como se chovesse. Ele seguiu rumo à sua vida sem aquela pedra no sapato enquanto o nevoeiro, também, lhe tapava o caminho. A borracha da natureza caiu sobre o parque, naquela noite com dois fins.

De manhã, só a torneira do chafariz, esquecida, ainda aberta, deitava água. Porque de resto, nada estava fora do sítio. O nevoeiro, de tudo tratou. Se ela não ia ser dele, se ela já não era dele, e ele sempre tivera sido, e era, dela, de mais ninguém ela ia ser.