Ok, tomei uma decisão.
Tu não mereces o esforços que eu faço por ti.
Quero acabar, quero mesmo acabar
Adeus, beijo, amo-te.
Quem diz isso diz muito mais, não é ?
Hoje em dias as coisas não passam de um nevoeiro agudo, espesso e agudo. As palavras fazem eco na palidez do ar e ressaltam em todas as direcções, o que torna impossível um diálogo. Como conseguirá alguém ouvir as minhas vozes de socorro se elas simplesmente voltam para trás ? Não vão em frente, como tu fizeste. O vento sopra rasteiro, perto do mato. Só existem folhas secas, plantas velhas e mortas, ramos partidos, e o nevoeiro. O vento leva algumas folhas atrás de si e nada mais. Não mexe o meu cabelo, não mexe as plantas ou o resto do mato, não mexe o nevoeiro. E eu, aqui, perdido, sem ti, procuro um refugio.
Nunca me esqueci de todas aquelas palavras que tu gritas'te para mim com aquele tom acusatório. Nunca me esqueci de nada. Letra após letra, tu soletraste aqueles A D E U S , aqueles A M O - T E , aquele A C A B O U . Fiquei esquartejado em mil pedaços. Tu tives'te a coragem de o fazer, a lata de mo dizer da forma como disses'te e, acima de tudo, tives'te a lata de o fazer quando mais precisava de ti. Largaste'me no meio da estrada, no meio do nada, e foste embora. Que haveria eu de fazer? Ainda tentei desesperadamente correr atrás do carro, mas um nevoeiro espesso e inesperado surgiu à minha frente. Fez ressoar os sons do motor do teu carro, tapou'me a vista, escondeu a estrada. Eu ainda tentei seguir o teu som, mas parecia vir de todo o lado. Era o eco.
Há tempos indefinidos que ando aqui perdido. Caminho sempre em frente apesar de parecer andar em círculos. O nevoeiro faz com que tudo se pareça igual. Cansado já, sentei'me numa pedra tão familiar como o som da tua voz. Estiquei as pernas para as relaxar, endireitei as costas e, mais uma vez, recordei as tuas agressões expressadas. Nunca te consegui esquecer e nunca te deixei de amar, mas aquele pequeno erro, que não foi meu nem teu, estragou tudo. O erro foi do tempo, de uma falta de oportunidade. Tudo encaminhou a nossa vida para o inferno. Para o fim. Sem me conseguir conter durante mais tempo, desatei a chorar. Era uma dor horrível, uma dor insuportável.
Enquanto me lamentava e chorava lágrimas com toneladas de mágoas e dor dentro delas, uma brisa passou. A primeira desde sempre. Afagou'me carinhosamente a cara, remexeu o nevoeiro e trouxe'me um presente. Não foi preciso abrir os olhos para saber que presente me tinha trazido. Reconhecia'o de qualquer parte. Era a única coisa tua, que me fazia esquecer todos os males. Não era a tua voz, não eram os teus carinhos, era o teu perfume. Sempre fui pessoa de cheirar tudo o que era e deixava de ser, e o teu perfume, era o aroma perfeito. Andava comigo, na minha roupa, na minha casa, no meu sofá, nos meus lençóis, em todo o lado.
Fiquei a apreciar aquele pedaço de ti que o vento me trouxe. Não sei porque me trouxe, mas levei como uma esperança migalhada. Veio do pão que fomos e que foi pisado e repisado. Agora, vou pegar nesta migalha e procurar as outras. Hei'de juntar cada pedaço nosso. Hei'de lutar até morrer! Nem que tenha que desviar este nevoeiro com o meu próprio sopro. Nem que tenha que correr durante anos. Nem que tenha que esperar para o resto da vida. Posso perder o ar, mas vou perder a lutar. Posso esgotar o meu físico por completo, mas esgoto a lutar. Posso morrer de velhice, mas morro a lutar.
Vou lutar, porque quem diz o que tu disses'te diz muito mais. E quem sabe, talvez um amo'te, um desculpa, um quero'te de volta (?) .