Ele era o mais renegado da turma. O esquisito porque andava sempre vestido de preto, o ignorado porque era introvertido, o nerd porque tirava as melhores notas daquela região, o estranho, o parvo, a ovelha negra da turma, o excluído. Nem eu sei o nome dele, vejam só. Eu, um "amigo" dele, não sei o nome do pobre miúdo. Ele é uma incógnita total. Só se sabe que tem 17/18 anos, não mais, e sabe'se que tem um gato porque normalmente a roupa dele tem pelo de gato. Ou pelo menos parece ser de gato. Enfim, ontem tivemos aula de química. Para nossa surpresa tivemos uma aula prática inesperada devido à ausência da nossa stora. Ela estava doente e veio outra dar'nos aula de substituição. Como não sabia em que matéria estávamos nem o que já tínhamos dado, decidiu fazer uma aula prática. Como ninguém tinha bata, ninguém fez nada além de olhar. Por norma, a turma dividia'se em grupos e trabalhavam nas bancadas.
A stora começou por recordar as regras básicas que já sabias de cor. Usar sempre bata, luvas e se fosse o caso, máscara. Não cheirar ou provar nenhuma solução e por aí adiante. Fez várias misturas e brincadeiras com os químicos que a escola possuía. Fazia a água ter cor, fazia um mini fogo de artifício num recipiente, separava o sal da água, etc. E sempre que pegava num novo frasco repetia "Não mexam directamente nisto.", "Usem sempre luvas.", "O Potássio é muito perigoso.", "O gás resultante desta reacção é tóxico, não cheirem meninos". Era sempre a mesma lengalenga. Mas parece que não foram repetidas as mesmas coisas as vezes suficientes..
Depois da aula a stora pediu ajuda para arrumar as coisas e nós ajudámos. Ela guardou os frascos por categoria e em diferentes armários. "Inflamáveis", "Explosivos", "Corrosivos" e "Letais". Trancou cada um com a mesma chave e à saída deu'a ao funcionário do pavilhão, que por sua vez, a colocou no porta-chaves.
Saímos todos da escola como normal, e para variar um pouco, o miúdo ficou para trás. Ele que costuma ser o primeiro a sair'nos do horizonte, desta vez, nem chegou a fazer parte do mesmo. Ninguém lhe ligou nenhuma e seguimos todos caminho.
(...)
Eram 23:37 quando recebi uma sms da Joana, colega de turma, a dizer que o excluído tinha sido encontrado morto. A causa da morte ainda era desconhecida mas era provável que fosse homicídio. Reencaminhei a sms para o resto da turma e as resposta que recebi foram de medo. Ninguém tinha dito que tinha pena do miúdo, ninguém quis saber o que realmente se tinha passado. Só estavam preocupado com o facto de poder haver um maníaco na zona. Fui dormir e, sinceramente, adormeci a pensar como seriam as nossas vidas se realmente houvesse um maníaco há solta. Nem eu me preocupei com o miúdo.
Na manhã seguinte existia polícia na escola. Muita polícia na escola. Canais televisivos, os directores da escola, os pais do miúdo a chorar, e toda a escola na rua. Foi'nos transmitido que não havia aulas porque estava a decorrer um processo de investigação na escola. O laboratório de química tinha sido vandalizado. Havia armários no chão, frascos partidos por todo o lado, já tinham cá estado os bombeiros a apagar fogo, enfim. A escola estava um caos. Todos aqueles elementos químicos, juntos, no chão, não devem ter dado origem a coisa boa. Corriam vários rumores de quem poderia ter sido. Iam desde o funcionário ao vilão da escola. Mas havia um rumor em particular que era demasiado interessante para se deixar passar ao lado.. será que a pessoa que destruiu o laboratório de química foi a mesma pessoa que matou o miúdo ?
(...)
Uns dias depois, quando já havia aulas, estávamos nós a ter aula de química num contentor provisório quando a stora comentou com os seus botões ..
- Estranho.. Tão estranho.. Mas quem e porquê?
Não consegui estar calado e curiosamente perguntei:
- O que stora? O que é que é assim tão estranho?
-Oh, não é nada.. Sabem, é que desde aquele pequeno incidente no laboratório de química, que reparámos que falta um frasco. Fizemos o inventário do que tinha sido destruído e do que tinha resistido ao vandalismo. Mas pelo que parece, foi mesmo um assalto.. Falta'nos um frasco que tínhamos guardado e que não conseguimos encontrar! Nem mesmo no meio dos destroços ele estava. Ele tinha uma cor amarelada para o podermos identificar rapidamente, mas não sabemos dele. É muito estranho..
Realmente era estranho, mas esquecemo'nos daquele pormenor antes de acabar a aula. Ninguém ficou interessado em tal assunto.
Cheguei a casa um pouco curioso para ver as notícias. Era hoje que o miúdo, que ainda não consegui saber o nome!, era autopsiado. Queríamos todos saber a causa da morte, visto que não havia feridas expostas.. Podia ter sido traumatismo, pescoço partido.. sei lá.
Liguei nas notícias e esperei. 20 minutos depois a notícia começou..
Fiquei em estado de choque, completamente! A causa da morte tinha sido, suicídio. E o que encontraram no interior do corpo dele foi restos dos órgãos. Tinham sido queimados, comidos, corroídos. E ainda fiquei mais chocado ao saber que a polícia, ao investigar a casa do Pedro, finalmente soube o nome dele!, encontrou um frasquinho debaixo da cama dele.. Um frasquinho amarelo com o rótulo "Atenção, altamente corrosivo, tóxico e letal! POTÁSSIO".
Ele matou'se.